Mastites: quando a inflamação da mama entra na maternidade

Amamentação

Se o leite estagna ou há fissuras no mamilo em mães a amamentar, as mastites são problema frequente e podem evoluir para outras complicações. Prevenir é a palavra de ordem e o bom aconselhamento na hora de alimentar o bebé com o peito é o segredo.

Ano de pandemia, 2020, uma gravidez de risco e um confinamento que lhe deu tempo para pesquisar, muito. Sofia Roque Grilo, 32 anos, de Portalegre, estava prestes a ser mãe e no rebuliço de emoções quis preparar-se para tudo o que aí vinha. “Queria amamentar, sentia que era o melhor para mim e para a bebé. No seio familiar, avós, sogra, davam-me indicações contrárias. Diziam-me assim e assado. Uma teve os mamilos gretados, a outra sofria horrores a amamentar. Comecei a ficar mais preocupada até do que com o próprio parto.”

Nas pesquisas, encontrou uma consultora de amamentação, fez formação. “Abordámos várias coisas e um dos problemas mais comuns eram as mastites.” Não foi de olhos fechados, já estava alerta aos sinais: mama vermelha, quente, dor. Era 19 de julho do ano ido, a pequena Olívia quis nascer. Cerca de dois meses depois, uma mastite. “No início, eram umas pontadas que pensei que seria da descida do leite. A dor começou a aumentar e num curto espaço de tempo, já sentia a mama muito quente, vermelha. Percebi logo e a minha consultora confirmou-me.” Não queria chegar ao ponto de evoluir para um abcesso, agiu. “O que resultou comigo foi pôr-me no duche, com o chuveiro de água quente sobre a mama, e fazer massagens fortes, para o leite estagnado, que estava a criar inflamação, sair.” A dor era tal que teve de pedir ao marido para ser ele a massajar. “Essas extrações manuais aliviaram bastante.”

Um mês depois, voltou a acontecer. “A mesma mama, no mesmo local.” Aí, foi ela própria a fazer a massagem. Nunca foi ao médico, o facto de trabalhar na área – é técnica superior de diagnóstico e terapêutica da área da farmácia – também a descansou. “As mastites são normais, o corpo leva tempo a ajustar-se para produzir apenas a quantidade de leite suficiente para satisfazer as necessidades do bebé. E no período inicial ela não mamava assim tão bem e o leite acumulava-se nos ductos.”

A explicação de Sofia está correta. O corpo da mulher está preparado para produzir leite para mais do que um bebé, e só nas primeiras semanas de amamentação é que há uma regulação da quantidade produzida. Mónica Centeno, obstetra no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, confirma que “a acumulação excessiva de leite na mama leva a respostas inflamatórias”. Chama-se mastite à inflamação da mama, que se pode acompanhar de infeção. Não acontece só a mulheres a amamentar, mas esses casos são de longe os mais vulgares. “Os principais sintomas são vermelhidão, dor e calor locais”, explica a médica. Em casos mais graves, e com a progressão, as mastites podem provocar febre, nódulos, sintomas de mal-estar geral, abcessos mamários e até sépsis. Não só é doloroso, como afeta a qualidade de vida da mãe. Daí a importância do diagnóstico precoce.

Comum nas primeiras semanas de vida
As causas, essas, são muitas, segundo Sofia Silva, médica de família e consultora de lactação certificada. “A mama tem vários ductos, como se fosse um sol raiado. E o que acontece é que um desses ductos inflama. Ou porque há leite parado, ou porque há uma lesão da mama, como uma fissura ou ferida, que permite a entrada de bactérias.” Geralmente, tem a ver com a dificuldade do bebé em extrair leite, uma má pega, e acontece mais frequentemente nas primeiras semanas de vida. “Nessa fase, é fundamental haver um contacto mãe-bebé frequente para não se correr o risco de o leite estagnar e o corpo perceber quanto leite precisa de produzir.”

A má pega ou a baixa frequência das mamadas são as principais causas para a estagnação do leite, mas não são as únicas. “Uma coisa de que não se fala muito são os sutiãs, que não devem ser apertados. Basta o sutiã pressionar um bocadinho um ducto para ele não esvaziar.” O desmame muito rápido também entra no rol. Em Portugal, não se sabe qual a prevalência da mastite. Estudos dos Estados Unidos apontam para três a 20%. Mas há quem defenda, como o obstetra Luís Guedes-Martins, que a mastite não complicada atinge pelo menos 50% das mães a amamentar.

E o tratamento depende de muitos fatores. “Se a mama não está a ser esvaziada, é esvaziar, esvaziar, esvaziar. Com o bebé a mamar, extração manual, com ajuda da bomba”, diz Sofia Silva, que dá dicas: “Devemos aquecer a mama com chuveiro quente, uma toalha húmida ou um saco de sementes. E massajar antes de dar de mamar sempre no sentido do mamilo. Depois de esvaziar a mama, aplicar compressas frias para desinflamar e massajar no sentido contrário, em direção à axila.”

Quando a febre entra na equação e se acredita que a mastite tem uma componente infecciosa, a solução passa por anti-inflamatórios ou antibiótico. Independentemente do estadio da mastite e até da medicação, interromper a amamentação não é aconselhado. E se evolui para abcesso mamário, bem mais raro, pode ser necessária intervenção cirúrgica para drenar. “O que é muito importante é que as mulheres tenham apoio na amamentação nas primeiras semanas. Fissuras no mamilo não é normal. Dor com o bebé a mamar também não”, avisa a médica, que diz que no nosso país só há cerca de 25 consultores de lactação certificados. Estima-se que 80% a 90% das mulheres portuguesas tentem iniciar o processo de amamentação e muitas das dificuldades têm a ver com o aconselhamento.

É possível prevenir?
Para o obstetra que se dedica à medicina fetal no Centro Materno Infantil do Norte, Luís Guedes-Martins, a prevenção é a palavra de ordem. Isso e a ausência de pressão. “O leite materno é o alimento ideal até aos seis meses de vida. Mas isto não pode ser uma forma de pressão, uma imposição retrógrada e injusta. Se não amamentar não se é uma mãe pior. O processo tem que ser positivo, a mãe tem que se sentir confortável”, ressalva. No que toca a prevenir a mastite, alerta para o primeiro problema. “O bebé deve mamar logo na primeira hora de vida. E pode-se amamentar sempre que o bebé quiser. Não tem que haver um horário fixo. Nem se deve interromper a mamada de forma súbita, deve ser o bebé a fazê-lo.”

O professor de Obstetrícia aponta outra das principais questões: mamilos gretados. “A mãe tem que perceber se o bebé pega bem na mama, é uma autoaprendizagem. Não há nenhum botão que nos diz. E se acontecer, há uma medida muito simples, que são duas ou três gotas de leite no mamilo após o banho e após cada mamada. O leite materno é o melhor cicatrizante.” Tratar precocemente mamilos gretados, garante, previne a inflamação da mama.

“A mastite é uma complicação médica importante. Mas quanto melhor for o aconselhamento, menor é a probabilidade de acontecer. Há linhas diretas nas maternidades para responder a dúvidas. E isso evita mastites muito complicadas, com necessidade de antibiótico ou cirurgia.” É quando as mães deixam que o processo avance que surgem complicações. “Os sintomas localizados passam a sinais mais exuberantes, com dor agressiva, febre, crescimento anormal de uma mama, um processo inflamatório significativo. Se é frequente? Não e cada vez menos, porque temos um Serviço Nacional de Saúde que funciona”, conclui o médico.

Fonte: Notícias Magazine

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